quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mendoza: impressões (Escrito em 21 de setembro)

Mendoza, Argentina, Universidad Nacional de Cuyo...
Antes de chegar a Mendoza estava cheia de expectativas, afinal Buenos Aires é seguramente umas das cidades mais maravilhosas que conheço e a Argentina é um país encantador, pero Mendoza...
A primeira vista é uma cidade interessante, bem arborizada, com praças bem cuidadas porém além das árvores e praças, o que há?
Não posso reclamar nada quanto a organização mendozina do curso, foram praticamente perfeitos, mas a cidade me faz lembrar a cidade onde nasci, o único lugar onde tenho certeza que não posso viver.
Mendoza tem uma sociedade fechada, ligada ä aparências, ao status, onde não és nada se não tiveres algo ou se não aparentares ter algo. E isso faz eu me sentir muito mal, afinal é como estivesse na cidade onde nasci! Gosto de sentir-me livre para ser, vestir,pensar o que eu quiser e não gosto que me olhem e me meçam, em absoluto. Gosto de poder ser quem sou, sem que isso incomode a ninguém e sem invadir o espaço alheio, mas o problema começa quando invadem meu espaço, minha vida....
Minha estada em Mendoza fez com que lembrasse no meu irmão que quando viveu fora tinha adotado a música "Preciso me encontrar", interpretada pela Marisa Monte em seu primeiro CD, como dele e lembrei-me, então de uma musica do Kid Abelha que se chama "Nada Sei", a qual te transcreve muito do que sinto agora...

Nada sei dessa vida

Vivo sem saber
Nunca soube, nada saberei
Sigo sem saber...

QUE LUGAR ME PERTENCE
QUE EU POSSA ABANDONAR
QUE LUGAR ME CONTÉM
QUE POSSA ME PARAR...

Sou errada, sou errante
Sempre na estrada
Sempre distante
Vou errando
Enquanto tempo me deixar
Errando enquanto o tempo me deixar...

Destaquei a segunda parte, pois já estou segura de qual o lugar que me pertence, que eu posso (e devo) abandonar e preciso buscar um que me contenha e possa me parar (e realizar)....

Dois anos se passaram sem que eu sentisse... É como se eu tivesse dormido e acordado com 25 anos... Me sentindo muito insegura, apesar da minha idade.... Que seja Brasília, Florianópolis, Caxias do Sul, Buenos Aires.... Ou mais longe... Pois as sensações e sentimentos me dão pistas de qual pode ser esse lugar que me contenha e possa me parar e completar... E me deixar mais segura... Pois de fato odeio tudo que me faça lembrar de ... Que me faça sentir ....

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Minha paixão por Fernando Pessoa

Com 14 anos em uma feira do livro ganhei de minha mãe um livrinho de bolso de poesias do Fernando Pessoa e desde então sou completamente apaixonada por ele. Até hoje tenho esse livrinho com meus comentários, com destaques às poesias preferidas e quando necessito ainda recorro a ele. Naquela época meus amigos, e mesmo minha mãe que me presenteou o livro, não entendiam o porquê de tanta melancolia, tanto sentimentalismo e minha paixão por aquele livrinho de bolso... “Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.” Algumas vezes, tampouco eu me compreendia.
Agora, parece que começo a entender-me e conhecer-me melhor... Os anos passaram (sem que eu sentisse) e começo a compreender que isso tudo faz parte da minha essência, essa sou eu e tenho que aprender a lidar com esse sentimentalismo exagerado e com melancolia que normalmente me corrói o coração... Que me faz sentir tudo de maneira mais intensa... Tenho uma felicidade imensa por coisas pequenas, porém sofro por coisas que não estão ao meu alcance, por coisas que passaram e principalmente por coisas que estão por vir... E, a partir de então, posso unir o meu passado ao meu presente e assim posso ver que está tudo conectado, entendo melhor minha história, minha essência e a minha paixão por Fernando Pessoa e o quanto isso diz respeito à temática desse blog. Afinal minha paixão por Fernando Pessoa vai de encontro com Mrs. Dalloway.
Abaixo uma das minhas poesias preferidas de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa:
Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha
subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária
para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei
finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...Sim, o porvir...

sábado, 13 de setembro de 2008

As horas do dia de hoje passadas a imaginar àquelas do próximo dia.

Conversando com dois amigos me dei conta de algo interessante: sou Mrs. Dalloway. Desde então começo e escrever meu blog, como uma forma de, quem sabe, me conhecer, aprender e amadurecer mais...
Sou Mrs. Dalloway porque, assim como a personagem da novela de Virginia Woolf, em boa parte da minha vida, as horas de hoje foram passadas a imaginar àquelas do próximo dia... Principalmente nos dois últimos anos... E por isso não os senti passar... Não realizei quase nada, só sonhei... Mas ao menos o que realizei foi parte do que sonhei... Acho que imaginar e sonhar é o que faço de melhor...
De toda forma, continuo passando as horas do meu dia a pensar no dia de amanhã e depois e depois... E como Mrs. Dalloway quando não penso no amanhã penso no passado que não é somente um antecedente do presente... Está tão ligado a ele que muitas das horas que passo pensando no por vir são na verdade o meu passado...
E o meu presente? Não o sinto... Na verdade tenho medo e por isso as horas de hoje continuam sendo passadas a imaginar às do por vir...
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Um pouco sobre o Mrs. Dalloway...
Mrs. Dalloway é um romance sobre o tempo e a sua desconexão da existência humana. Clarissa Dalloway é uma mulher de meia-idade cujas paixões foram extintas e, enquanto se prepara para uma festa que vai dar na sua casa, começa a relembrar os momentos de sua vida e o que poderia ter sido diferente. No decorrer da história, o leitor é convidado para dentro das profundezas da mente dos personagens, é a expressão verbal de um dos processos psicológicos humanos mais profundos. Assim, como há pouca movimentação na história, e a que há se passa em um único dia, há um emaranhado de impressões, sensações e emoções. O passado, presente e futuro existem simultaneamente não só na mente da personagem, mas também nas páginas do livro, ao mostrarnos que vivemos no presente, mas que esse momento é influenciado pelo que já aconteceu e por aquilo que pode acontecer e assim Mrs. Dalloway passa horas de hoje a imaginar àquelas do próximo dia.